Miguel Bruno
A Lenda das Cobras da Lagoa: O Mito Colossal que Dorme nas Águas de Extremoz
Extremoz, Terra de Encantos e Mistérios Submersos
É virtualmente impossível traçar um panorama cultural de Extremoz sem esbarrar no véu do sobrenatural. A cidade é um caldeirão de histórias, mitos e mistérios que não apenas adornam seu folclore, mas parecem impregnar a própria paisagem. É através dessas narrativas que o povo de Extremoz consegue transcender o ordinário, imaginando uma realidade onde o ancestral e o fantástico coexistem.
E de todas as lendas que povoam o imaginário local, nenhuma ressoa com tanta força e fascínio quanto a Lenda das Cobras da Lagoa.
O Pecado, o Medo e o Nascimento em Dobro
A trama se desenrola nos tempos remotos em que Tupis e Paiacus eram senhores desta região. O ponto de ignição: uma jovem indígena, filha do rigoroso pajé da etnia, engravida. Tomada pelo medo e pela angústia da reação paterna, ela toma uma decisão desesperada: entregar a criança à Mãe D'água, nas profundezas da Lagoa de Extremoz.
No entanto, a vida (ou o destino) tinha outros planos. A jovem deu à luz não um, mas dois bebês — um menino e uma menina. Impulsionada pelo terror da condenação social, ela manteve a promessa feita ao mito, lançando as duas vidas inocentes nas águas frias da lagoa.
O que se seguiu foi uma metamorfose de proporções colossais. As crianças abandonadas se transformaram em duas cobras gigantes, de tamanho inimaginável, que passaram a habitar as profundezas da lagoa.
A Dócil e o Raivoso: Duas Faces da Maldição
O mito atribuiu personalidades distintas às criaturas. A cobra fêmea era descrita como "dócil" e "mansa". Raramente era vista, e praticamente nunca atacava os banhistas. Ela se mantinha reservada, quase como uma guardiã silenciosa.
Já o cobra macho era a antítese: bravo, raivoso e, sobretudo, incontrolável. Seus ataques eram vorazes, devorando todos aqueles que tinham a infelicidade de cruzar seu caminho. Por anos, as cobras viveram nesse dualismo aterrorizante: a fêmea, avistada em mergulhos tranquilos; o macho, a encarnação do perigo a ser evitado a todo custo.

Imagem: Redes Sociais | Histórias de Extremoz
O Milagre da Missa e a Maldição Final
Os anos se passaram, e a frequência e ferocidade dos ataques aumentaram, levando a sociedade da época a um estado de fé e desespero. Foi então que um padre jesuíta interveio. Ele convocou uma missa no domingo, ao meio-dia, na Igreja de São Miguel Arcanjo.
A sociedade de Extremoz compareceu em peso. Quando o sino ecoou as doze badaladas, o padre iniciou a reza em latim. No mesmo instante, as duas cobras gigantes emergiram das águas e se direcionaram para a igreja.
A cobra fêmea, em um ato inacreditável, envolveu seu corpo colossal no alicerce externo da igreja, permitindo que apenas sua cabeça ficasse voltada para dentro. O macho, rebelde até o fim, recusou-se a entrar e permaneceu enrolado do lado de fora.
Naquele momento, a cobra fêmea reconheceu entre os fiéis aquela que um dia a havia renegado: sua mãe. E, para espanto de todos, em um gesto que desafia qualquer explicação, a serpente mamou pela primeira e última vez no seio materno.
Após o espanto, o padre, em uma oração em latim diferente, benzeu a cobra fêmea. De forma sutil e calma, ela regressou à lagoa, onde — reza a lenda — dorme adormecida até os dias de hoje.
O macho, contudo, não teve a mesma sorte. Por sua violência e rebeldia, foi amaldiçoado pelo padre. Ele partiu em fúria, destruindo a vegetação por onde passava, e veio a morrer no local hoje conhecido como Lagoa Seca. Um fato notável: até hoje, nenhuma vegetação floresce no chão onde a cobra macho encontrou seu fim.
Os mais antigos insistem: a cobra fêmea ainda está lá, esperando o momento certo para emergir. Essa é a força de um mito que não se limita a contar uma história, mas que define a alma e a fé de Extremoz.




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