As Palavras que Cresciam no Ar

Seja bem-vindo
Extremoz,11/06/2026

    • A +
    • A -
    Publicidade

    Cefas Cesar

    As Palavras que Cresciam no Ar

    Recordações de um tempo em que ouvir histórias era aprender a amar a própria terra.

    Imagem gerada por IA
    As Palavras que Cresciam no Ar

    A primeira vez que ouvi falar em Chico do Ouro eu tinha sete anos. Naquele tempo, minha vida girava em torno de quatro lugares fixos em Extremoz, no Rio Grande do Norte: a casa da minha mãe, a barraca de frutas de Chico — armada perto da estátua do Menino do Grude —, a casa das freiras da Congregação das Filhas de Santana e a Biblioteca Pública Governador Cortez Pereira, vizinha à Câmara Municipal.

    Os sábados começavam cedo, embalados pelo cheiro de tapioca grelhada e de café torrado que vinha da fogueira da nossa cozinha. Às vezes, antes dos encontros vocacionais, eu passava rapidamente pela biblioteca. Ali havia livros com histórias do mundo inteiro, mas eu sempre acabava procurando aqueles que falavam das lendas nordestinas. Na parede, uma placa com o rosto do governador Cortez Pereira observava em silêncio os leitores, enquanto dona Elza, a funcionária, me deixava escolher livros mesmo fora do horário de empréstimo.

    Depois, eu me juntava aos meninos da rua: Zé Carlos, com os cabelos crespos como lã de ovelha, e Antônio, que nunca aparecia sem esconder um umbu verde no bolso da camisa. Caminhávamos pela calçada de paralelepípedos desgastados, pulando as poças d’água das chuvas passadas, até chegar à casa das irmãs.

    A casa das Filhas de Santana era grande, de paredes brancas que refletiam o sol forte do litoral potiguar. No jardim, hibiscos vermelhos pareciam pequenas labaredas. As freiras, com seus véus azuis e sorrisos serenos, nos recebiam com suco de caju e pão grande com café — pão caseiro macio, passado na chapa, banhado em manteiga e acompanhado de café preto forte. Aprendíamos sobre os santos, rezávamos e falávamos sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Mas confesso: minha mente já voava para outro lugar desde cedo.

    Depois dos encontros, nós três corríamos pelo centro antigo, direto para a barraca de frutas de Chico do Ouro, instalada à sombra da estátua do Menino do Grude. Diziam os mais velhos que a escultura homenageava um menino pobre que, décadas antes, vendia grude naquele mesmo ponto — o doce feito de goma de mandioca, cacau e assado em forno de lenha, com casquinha dourada e interior macio e perfumado. O garoto morreu ainda jovem, e a estátua de pedra foi colocada ali para manter viva a sua lembrança.

    Chico sempre nos esperava com a mesa de madeira repleta de frutas do sertão: umbus, cajus, goiabas vermelhas e melancias cortadas em rodelas grossas como pratos. Quando chegávamos, ele separava uma porção e nos entregava com um sorriso. Às vezes, ainda guardava um pedaço de grude para nós, feito por ele mesmo nos fins de semana.

    — Vão comendo, meninos. Depois a gente vai lá pra casa, perto da igreja, pra contar histórias! — dizia, enrolando um charuto enquanto guardava as moedas numa caixa de lata pintada de azul.

    A casa de Chico do Ouro era de taipa, encostada nas ruínas da Igreja de São Miguel do Guajiru. A igreja já não tinha telhado, e os vitrais sobreviventes estavam riscados pelo tempo, como olhos antigos que viram mais do que deviam. A casa era pequena, mas cheia de cheiros bons: tabaco, madeira seca, café, frutas maduras e o aroma inconfundível do grude assando no forno de lenha do quintal. Chamavam-no Chico do Ouro não por riquezas, mas porque seus olhos brilhavam como metal quente quando começava a contar histórias.

    Sentávamos no chão de terra batida, ao redor de um fogãozinho de barro. Ele pegava o cachimbo, acendia devagar e começava:

    — Há muito tempo, quando a igreja ainda tinha sinos que acordavam o povo ao amanhecer, havia um homem que cuidava das abelhas no alto das torres… E ali mesmo, na esquina onde hoje está a estátua, um menino fazia o melhor grude de todo Extremoz. Diziam que a receita tinha sido ensinada por uma curandeira que vivia nas matas ao redor…

    As histórias eram um misto de lendas locais e contos que pareciam nascer ali, no instante da fala. Havia a serpente que guardava o tesouro perdido dos primeiros padres, a menina que se transformava em garça todas as noites para visitar o amor do outro lado do rio Potengi, e o vento que conhecia os segredos das casas de pedra — inclusive os do menino do grude e os da biblioteca que leva o nome do governador Cortez Pereira.

    Enquanto ele falava, o sol se despedia por trás das ruínas da igreja, projetando sombras que dançavam no chão. Os outros meninos ouviam em silêncio, olhos arregalados. Eu sentia que cada palavra era uma semente plantada dentro de mim: a vontade de ver o mundo, de saber mais, de um dia também contar histórias.

    Chico sempre terminava do mesmo jeito:

    — Essas coisas não são mentiras, meninos. São verdades que o tempo guarda pra quem sabe ouvir.

    Prometíamos voltar na semana seguinte. No caminho de volta, com o céu já pintado de roxo, repetíamos as histórias, tentando imitar o tom de voz dele. A barraca de frutas estava fechada, a estátua do Menino do Grude parecia dormir sob a lua, a biblioteca e a Câmara Municipal permaneciam às escuras, e as ruínas da igreja guardavam, em silêncio, os segredos que Chico nos confiara.

    Para nós, aqueles sábados não eram apenas dias de fé ou de livros. Eram lições sobre o lugar onde vivíamos, sobre as pessoas que vieram antes de nós e sobre como as palavras podem fazer o mundo parecer maior — e infinitamente mais mágico — do que realmente é.



    COMENTÁRIOS

    LEIA TAMBÉM

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.